Ser mãe na Alemanha: minha história longe do Brasil
Cheguei à Alemanha sem filhos. Seis meses depois, estava grávida e começava a descobrir a maternidade enquanto ainda me adaptava a outro país.
Por Samya Julitz | Histórias de mães
Ser mãe na Alemanha não foi o primeiro capítulo da minha vida fora do Brasil. Quando cheguei, eu ainda não tinha filhos. Tudo era novidade. Seis meses depois, engravidei, e a adaptação ao país passou a acontecer junto com outra descoberta: a de me tornar mãe.
Hoje, oito anos depois, tenho duas filhas e vivo uma fase diferente. Construí uma rede de apoio incrível, as meninas estão mais independentes e me sinto mais amparada onde moro. Mas, quando penso no começo, lembro de quanto precisei das pessoas ao meu redor.
É desse começo que quero falar. Das consultas em outro idioma, da presença da minha mãe, da ajuda para amamentar e dos sentimentos que também fizeram parte da chegada da minha primeira filha.
A primeira gravidez e o alemão que parecia desaparecer
Graças a Deus, minha médica, a Dra. Lima Brendel, falava português. Ter essa possibilidade durante a gravidez fez diferença para mim.
Todas as outras consultas, porém, eram em alemão. E, com tanta ansiedade e emoção, parecia que eu tinha perdido o alemão que sabia.
Eu precisava do meu marido para tudo naquele contexto. A gravidez era uma experiência nova, o país também, e até o idioma que eu vinha aprendendo parecia ficar menos acessível quando eu mais precisava dele.
Quando conto essa parte, penso em como a adaptação pode acontecer de formas diferentes dentro da mesma pessoa. Estar morando em outro país não significava que eu já me sentisse preparada para viver todas aquelas situações em alemão.
Minha mãe ficou dois meses e isso fez toda a diferença
Minha família veio para a chegada da minha filha. Minha mãe ficou comigo por dois meses.
Essa presença fez total diferença. Ao lembrar daquele período, o apoio dela é uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça.
Eu estava começando a descobrir a maternidade e pude ter minha mãe por perto nessa fase. Foram dois meses importantes dentro de uma experiência em que quase tudo era novo.
Se hoje eu conto a minha história de ser mãe longe do Brasil, preciso contar também quem esteve comigo. A distância fazia parte da nossa vida, mas, naquele começo, minha família conseguiu estar presente.
A Hebamme e a ajuda para aprender a amamentar
Outro apoio essencial foi o da minha Hebamme, a profissional que me acompanhou no pós-parto na Alemanha.
Ela me ensinou a amamentar. Mesmo com a dificuldade do idioma, sua ajuda foi fundamental.
Guardo essa experiência como uma parte muito importante da minha primeira maternidade. Havia uma barreira na comunicação, mas também havia alguém me ajudando a aprender a cuidar da minha filha.
Quando penso nas pessoas que fizeram diferença, lembro de cada uma por um motivo: minha médica atendia em português; meu marido me ajudava nas consultas em alemão; minha mãe esteve comigo por dois meses; e a Hebamme me apoiou na amamentação.
O pós-parto e os sentimentos difíceis de contar
Houve também uma parte emocional difícil. Eu me refiro àquele período como o meu baby blues.
Eu queria proteger minha filha, mas não sentia conexão com ela naquele momento. Essas duas experiências estavam presentes ao mesmo tempo.
Esse é um trecho delicado da minha história, mas faz parte dela. Não quero contar a chegada da minha filha deixando de fora justamente aquilo que foi difícil sentir e colocar em palavras.
Ao compartilhar essa lembrança, estou falando da minha experiência, sem tentar definir o que outra mulher está vivendo. Cada história precisa ser escutada com cuidado, inclusive quando os sentimentos não são simples de explicar.
A segunda gravidez foi diferente
Depois, tive minha segunda filha. Lidei melhor com a segunda gravidez, embora ela também tenha tido suas dificuldades.
Já havia vivido uma primeira gestação e o começo da maternidade na Alemanha. A segunda experiência foi diferente, sem deixar de trazer seus próprios desafios.
Hoje consigo olhar para essas duas fases e perceber que a minha história como mãe também foi mudando. A mulher que chegou sem filhos passou por uma primeira gravidez, aprendeu com os apoios que recebeu e viveu uma nova maternidade depois.
Oito anos depois, uma rede de apoio e menos cobrança
As meninas cresceram. Hoje estão mais independentes, e isso me ajuda bastante.
Também me sinto mais amparada onde moro. Construí uma rede de apoio incrível, que faz parte da minha vida nesta fase.
Ainda preciso manter o ritmo da casa, organizar a rotina e acompanhar as necessidades da família. Às vezes me confundo. Às vezes não dou conta.
O que mudou é que já não me cobro tanto por isso.
Se deu, deu. Se não deu, faz amanhã.
Nem tudo pode esperar, claro. Mas estou aprendendo a reconhecer o que precisa ser feito naquele dia e o que pode ficar para depois. A organização continua sendo necessária; a cobrança por conseguir fazer tudo já não precisa ocupar o mesmo espaço.
Um espaço para contar a maternidade como ela é vivida
Quero que o Coração de Mãe Expatriado tenha espaço para essas histórias.
Os documentos, as regras e as informações práticas fazem parte da nossa vida fora do Brasil. Também fazem parte dela a consulta em que precisamos de ajuda para nos comunicar, a visita da nossa mãe, o apoio de uma profissional e a rede que vamos construindo com o tempo.
Esta é a minha experiência. Outras mulheres terão chegado com filhos maiores, vivido a gravidez em outro país ou encontrado apoio de outras formas. Quero que essas histórias também possam encontrar lugar aqui.
E você: quem foi sua rede de apoio quando virou mãe? Se quiser, conte nos comentários apenas o que se sentir à vontade para compartilhar.
Para continuar a leitura
- Oktoberfest com crianças: nossa experiência em família em Munique
- Mudança da Alemanha para a Suíça: nosso guia
Nota de cuidado sobre o pós-parto
Este é um relato pessoal, não uma avaliação clínica. Baby blues e depressão pós-parto não são a mesma coisa. Segundo o portal público alemão familienplanung.de, o baby blues costuma passar em horas ou dias. Tristeza ou falta de energia que persistem por mais de uma a duas semanas podem indicar depressão pós-parto e precisam de avaliação profissional. Se o sofrimento for intenso, procure ajuda antes desse prazo. Dificuldade de conexão com o bebê, isoladamente, não permite identificar a causa. familienplanung.de
Se você está passando por dificuldades, converse com sua médica, seu médico ou sua Hebamme para buscar apoio adequado.
Fontes: Baby-Blues e Wochenbett-Depression, familienplanung.de, em alemão.






